Platô angolano isolado por minas de guerra revela novas espécies: libélulas, mariposas, gafanhotos e aranha-caranguejo fluorescente

Leonardo A Santos
Publicado em: 15 de junho de 2026
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Platô angolano isolado por minas de guerra revela novas espécies: libélulas, mariposas, gafanhotos e aranha-caranguejo fluorescente

Uma aranha-caranguejo coroada que emite luz azul sob iluminação ultravioleta sem que os cientistas entendam por quê estava escondida em um platô africano que a ciência nunca havia mapeado de verdade. O acesso só foi possível agora porque, durante 27 anos, uma guerra civil e campos minados ativos tornaram a meseta de Lisima, em Angola, simplesmente intransponível.

Platô angolano isolado por minas de guerra revela novas espécies: libélulas, mariposas, gafanhotos e aranha-caranguejo fluorescente
Foto: Nicky Bay/The Wilderness Project

Em fevereiro de 2026, uma equipe de 16 especialistas africanos e internacionais entrou na região pela primeira vez com equipamento científico completo. O levantamento, chamado Cassai Life Atlas, foi conduzido pelo The Wilderness Project. O que encontraram redefiniu o mapa da biodiversidade do continente africano.

A aranha que ninguém deveria ter encontrado

Uma aranha-caranguejo coroada brilha em azul intenso sob luz ultravioleta na meseta de Lisima, em Angola e os cientistas ainda não sabem por quê. A espécie é uma das dezenas de novas espécies encontradas em uma área que permaneceu invisível para a pesquisa por décadas.

A guerra civil angolana durou de 1975 a 2002. Deixou minas terrestres espalhadas por boa parte do país, inclusive nas proximidades do platô. Essa barreira involuntária impediu explorações científicas e, ao mesmo tempo, manteve o ecossistema intacto.

Além da aranha fluorescente, os pesquisadores identificaram uma aranha-tecelã de orbicular laranja que imita a aparência da joaninha venenosa para afastar predadores. O mecanismo é chamado de mimetismo batesiano, a presa inofensiva copia a aparência de uma espécie tóxica conhecida. A espécie pode ser inédita para a ciência.

Novas espécies de libélulas registradas na meseta de Lisima durante expedição Cassai Life Atlas 2026
Foto: Nicky Bay/The Wilderness Project

Libélulas, mariposas e gafanhotos que a ciência ainda não conhecia

A expedição de fevereiro de 2026 registrou 103 espécies de libélulas e libelinhas na meseta de Lisima, sendo oito delas não descritas formalmente pela ciência. O número total de espécies conhecidas na região subiu para 163, 34 delas registradas na área pela primeira vez.

O levantamento também mapeou os seguintes grupos:

  • Mariposas e borboletas: mais de 1.000 espécimes coletados, com cerca de 60 espécies novas para a ciência
  • Gafanhotos, grilos e katídeos: 47 táxons identificados, três deles completamente novos
  • Répteis e anfíbios: 24 anfíbios e 23 répteis, incluindo uma cobra-de-olhos-grandes registrada fora do norte do país pela primeira vez

“A planície arenosa de Lisima libera uma das águas mais claras e confiáveis da África e isso se reflete nas libélulas da região, com várias espécies altamente especializadas que não existem em nenhum outro lugar.” — Dr. Klaas-Douwe B. Dijkstra, especialista em libélulas, Centro de Biodiversidade Naturalis (Países Baixos)

A água que nasce na meseta alimenta quatro dos maiores sistemas fluviais africanos: o Congo, o Okavango, o Zambeze e o Cuanza. Comunidades espalhadas por milhares de quilômetros dependem dessas bacias. Até fevereiro de 2026, ninguém havia documentado sistematicamente o ecossistema que as abastece.

O que está em risco agora que o mundo sabe que esse lugar existe

Em 2025, o The Wilderness Project garantiu o reconhecimento de 5,4 milhões de hectares da meseta de Lisima para proteção, uma área maior que toda a Holanda. Em outubro do mesmo ano, a organização Ramsar classificou a região como zona úmida de importância internacional.

O problema é que as ameaças já chegaram antes da proteção formal. A mineração artesanal de diamantes, o desmatamento e as queimadas avançam sobre as bordas do platô. Libélulas são especialmente vulneráveis à degradação da qualidade da água, justamente o recurso que a meseta exporta para o continente.

Grilo Blindado Katideo Novo Lisima Angola
Foto: Nicky Bay/The Wilderness Project

Rob Taylor, líder da expedição, foi direto: “O resultado mais importante dessa expedição é que essa área não é mais um ponto cego.” Besouros, aranhas e escorpiões coletados em campo ainda estão sendo analisados em laboratório. O número final de novas espécies vai aumentar.

A próxima etapa do Cassai Life Atlas envolve a análise de espécimes de besouros, escorpiões e aranhas ainda em laboratório, grupos em que os especialistas esperam os achados mais expressivos. A meseta que a guerra manteve fechada por três décadas agora depende de decisões políticas e científicas para seguir existindo da forma como os pesquisadores a encontraram.

Leonardo A Santos

Apaixonado por mistérios, curiosidades e grandes acontecimentos históricos, compartilho histórias fascinantes, análises e conteúdos exclusivos sobre os eventos que moldaram o mundo.