Forte de Vindolanda: tamanco romano de 1.800 anos pode ser o calçado de banho mais antigo já encontrado

Leonardo A Santos
Publicado em: 8 de junho de 2026
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Forte de Vindolanda preservou o chinelo de banho mais antigo do mundo por quase 2 mil anos

Encontrado em solo anóxico próximo à Muralha de Adriano, o calçado de madeira e couro datado de 140 a 180 d.C. agora é tema de exposição em Toronto e enfrenta um rival francês pelo posto histórico.

O piso das termas romanas chegava a 50°C, quente o suficiente para queimar a planta do pé em segundos. Para atravessar esse calor de pedra, os soldados romanos usavam um tamanco de madeira com tiras de couro que sobreviveu quase intacto por 1.800 anos enterrado na fronteira norte do Império.

O forte de Vindolanda, na Inglaterra, guarda hoje o candidato mais bem documentado ao título de chinelo de banho mais antigo do mundo e a disputa científica sobre esse posto acaba de ganhar um novo capítulo.

Forte de Vindolanda preservou o chinelo de banho mais antigo do mundo por quase 2 mil anos

O calçado que o piso escaldante tornou obrigatório

Os tamancos romanos de Vindolanda foram fabricados para suportar pisos que chegavam a 50°C nas termas aquecidas pelo sistema hipocausto. Com plataforma de madeira de cerca de 5 cm de espessura, isolavam os pés do calor e davam tração em superfícies molhadas, função que qualquer frequentador de academia reconhece no chinelo de borracha moderno.

O hipocausto era a engenharia de aquecimento dos romanos: fornalhas sob o piso empurravam ar quente por câmaras de alvenaria, transformando o caldarium, a sala mais quente das termas, num ambiente de vapor intenso. Funcional e perigoso para quem tentasse caminhar descalço.

O tamanco resolvia dois problemas de uma vez. A plataforma de madeira bloqueava o calor. As tiras de couro fixavam o calçado ao pé e impediam escorregões nos pisos encharcados. Os romanos chamavam esse calçado de sculponeae.

Alguns modelos encontrados no forte também trazem incisões decorativas, desenhos geométricos e formas que imitam os dedos dos pés esculpidos na madeira. Eram sinais de status: quanto mais elaborado o tamanco, maior o prestígio do banhista.

ComponenteMaterialFunção
PlataformaMadeira (~5 cm de espessura)Isolamento térmico contra piso a 50°C
TirasCouroFixação nos pés e tração em superfícies molhadas
DecoraçãoIncisões na madeiraIndicador de status social do banhista

O que o solo de Vindolanda guardou que nenhum outro sítio conseguiu

O solo anóxico de Vindolanda preservou mais de 5 mil calçados por quase dois milênios, uma condição química única que nenhum outro sítio romano replica em escala. Camadas de argila selaram detritos orgânicos e eliminaram o oxigênio, impedindo a decomposição de madeira e couro desde o século II.

O forte de Vindolanda fica ao sul da Muralha de Adriano, em Northumberland, no norte da Inglaterra. O solo lamacento do sítio funcionou como uma câmara de vácuo natural: sem oxigênio, bactérias decompositoras não conseguem trabalhar. Por isso, material orgânico que normalmente vira pó em décadas chegou ao século XXI.

O acervo de calçados do sítio tem tamanho médio entre 24 e 26 cm, equivalente a um número 37 a 39 no padrão brasileiro. Um dado que humaniza o arquivo: os soldados romanos na fronteira norte do Império tinham pés do mesmo tamanho que boa parte da população adulta brasileira hoje.

O Vindolanda Trust estima que apenas um quarto do sítio foi escavado. Tudo que já foi encontrado: tamancos, luvas de boxe, tábuas de escrita, um pingente fálico de azeviche, vem de 75% de terreno ainda intocado.

Veja também: Sistema de água de cidade grega mítica funcionou por mais de 1.000 anos sem parar, revela estudo

O título “mais antigo do mundo” ainda não está decidido

O tamanco de Vindolanda é o candidato mais documentado ao título de chinelo de banho mais antigo do mundo, mas a confirmação científica ainda depende da datação de um rival encontrado na França em 2025. O sítio de Isarnodurum, escavado na Gália romana, pode ter calçados de banho ligeiramente anteriores, os resultados das análises são esperados ainda em 2026.

A distinção importa porque o critério é específico: sandálias comuns existem há milênios, inclusive na coleção do faraó Tutancâmon, datada de 3.300 a.C. O que os arqueólogos discutem é o calçado de banho, aquele feito para o ambiente das termas, com plataforma elevada para isolar do calor.

Por ora, o tamanco do forte de Vindolanda é o mais bem preservado e documentado do mundo nessa categoria. A discussão científica entre os dois sítios ganhou novo peso em 2026, quando o Bata Shoe Museum de Toronto abriu a exposição Unearthing Vindolanda: Footwear from the Edge of the Roman Empire em cartaz até setembro de 2027.

A mostra leva os tamancos romanos para o mesmo espaço em que ficam chinelos egípcios e sapatos medievais, colocando a engenharia do século II lado a lado com a história do calçado humano. Uma comparação que, há dois anos, seria impossível sem a preservação única do solo de Vindolanda.

A exposição Unearthing Vindolanda segue aberta em Toronto até setembro de 2027, e a resposta sobre qual sítio guarda o tamanco de banho mais antigo do mundo depende da confirmação das datações de Isarnodurum, resultados esperados ainda em 2026. Quem chegar primeiro ao resultado não vai apenas reescrever um verbete de museu: vai mudar a linha do tempo do objeto mais banal que existe num banheiro.

Leonardo A Santos

Apaixonado por mistérios, curiosidades e grandes acontecimentos históricos, compartilho histórias fascinantes, análises e conteúdos exclusivos sobre os eventos que moldaram o mundo.